Fazem 5 meses,exatamente, que arrumava as mesmas malas. Aquele momento estranho e indiferente, trazia uma mensagem pouco compreensível a quem acabara de acordar pra vida . O soar do aparelho celular despertou-a de seus devaneios para uma realidade não muito palpável. Era frio. Um convite, um teste, uma certeza: a vida seria outra (e fria) daquele dia em diante. Aceitou o que lhe propuseram, sem muita certeza ou convicção. Como sempre, diante de situações novas, enrolou-se nas mantas de seu casulo. Não posso, não consigo, não vou. Fui. Quatro meses se passaram desde que tomou as rédeas de sua vida nas mãos de maneira profissional. O primeiro momento rescendeu a admiração e desejo. Fúria por concluir aquela primeira etapa, aquele primeiro contato. Nas primeiras vezes, cautela e humildade. Aos poucos, a destreza foi se instalando, ainda que na maior parte das vezes recorresse a seu mentor para iluminar as ideias mais nebulosas. Já nos primeiros dias fora agredida. Tentaram lhe tomar o direito de trabalhar por ser brasileira. Teve de esperar horas pelo momento culminante. Na neve, na chuva. Pisou em sangue humano. Esta, de todas, certamente se configurou na sensação mais marcante de todas. Passadas e vindouras. A vida expirando ante as lentes da verdade editada. Viu a alegria de quem honra o saudosismo. o brilho verdadeiro no olhar de quem sabe o que o passado traz consigo. Viu a indiferença de quem é solidário e a ironia dos mais sonsos. A alegria mascarada e a tristeza consentida. A lágrima verdadeira de quem morrer todo dia por uma pequena seringa. A bravura de quem teme e o medo dos fortes. Tudo isso em poucos meses, tudo isso na ponta de um lápis preto e de um amontoado de folhas velhas. O tempo urge e o que é novo não pode esperar. Ele sempre vem. Como desejei estes dias. Como me assustaram, quando chegaram. Eu os temo pela intensidade com que invadiram minha própria caminhada, como me mostraram que minhas convicções teóricas, muitas vezes mais ácidas do que pensava conseguir colocar em prática, são reais e conclusivas. Me apavora o deleite que me consome o dia a dia daquilo que escolhi para mim.
E O inverno, com suas intempéries cotidianas,parecia nunca acabar após três meses de labuta intensa, e naquela manhã estranha as nuvens se mesclavam com os raios de sol que insistiam em brotar ao longe. O vento batia nos lábios sem batom. Acordara cedo e quedou-se desinquieta a fazer passar os minutos de longos segundos. O coração batia no tique-taque do relógio imaginário que contava círculos doloridos. Nunca despertava tão cedo. Seria a primavera raiando?Não,em Londres..Com os pés saltitantes, correu para o banho, do banheiro para a cozinha, da cozinha para os devaneios. Sete e cinco. Cedo. Muito cedo. Será que a deixariam partir tão cedo? Decerto que não, haveriam de detê-la com argumentos mais táteis do que a contra-proposta que ruminava dentro de si. Pensa, repensa. Teria de bolar uma estratégia. Fugir. Estúpido. Argumentar. Mais ainda. As mãos em forma de medusas retorcem o ar quente-frio daquelas paragens. O verde acastanhado dos olhos pede apoio à neve que embeleza as ruas. Precisa sair. Precisa. Toma coragem.Vai Não pode acreditar no que acabara de ver. Lançaram-lhe a graça maior. Estava livre! Estava senhora de suas pegadas! Passa mão na mochila e desce as escadas do metrô no compasso frenético o qual embalava suas ideias. O caminho era curto, pouco mais do que o espaço equivalente a três quadras de grandes cidades. Na sua jornada, poucas são as pulsações de vida que lhe transpassam o andar. Um punk, um gato, um senhor de olhar perdido. O coração acelera, o suor vai lhe alfinetando as palmas das mãos. Chega. O portão. Com cuidado certifica-se de que está no lugar certo. Da esquerda para a direita, passa o olhar pelo entorno: Ao fundo, as duas edificações centrais. À esquerda, uma simbólica capela anglicana, avizinhada por um parque de brinquedos pouco confiável. Os tons de bege e verde tomam conta do lugar. As salas onde diferentes idades, tamanhos e problemas se mesclam na busca pelo amanhã aguardam o despertar de mais um ciclo. Tudo isso passa no raio de um segundo por sua mente. Firma os passos, ergue o semblante, foca seu grande objetivo: estão lá! Um ao lado do outro, de um amarelo desbotado, velam as pilastras brancas e o chão de cimento ornamentado . A tinta solta-se rebelde, como a gritar por socorro. Naquele dia, não haveria tristeza. Naquela hora, tornara-se dona do tempo e da verdade. Naquela segunda- feira, caísse o céu ou o sol sobre os homens, ela cumprira sua missão.
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