quinta-feira, 6 de junho de 2013

A parte débil da minha maçã do amor é a que mais polpa possui.


Era para estar mais frio do que estava. Ela finge que está em paz consigo mesma e com o universo, olha para o relógio, treme por dentro e por fora, pondo a culpa na hipoglicemia.. Mais um dia como todos os outros. Mais uma ciclo de repetições inovadoramente maçantes. Se arruma e espera. Tem a mente longe, o espírito em alguma paragem da infância, da terna idade da ilusão. As pernas giram impacientes, trocam de posição entre si intermitentemente. O sol desce as montanhas despedindo-se como se fosse a primeira de todas as próximas vezes. É o reinventar da saudade, o recaminhar na estrada existencial. O segundo exato para mudar o resto da história. Ele chega. Ela sorri. Ele sabe o que ela pensa, ela sabe que ele sabe, e morre de vergonha por isso, escondendo-se por detrás da máscara burocrática das convenções sociais.Notara-o tão logo ele sorrira pela primeira vez. A clássica mescla de repugnância com simpatia fez-se presente naqueles minutos, por aqueles caminhos. Todos os dias ela via sua sombra indo de encontro a dele tão superficialmente que teimou em acreditar naquilo, nunca ele conseguiria ler seus pensamentos. Como era bobo, como era ético. Os fatos seguiram nesse ritmo  até o dia em que ela percebeu que seu  mundo desabou como se fosse um grande e frágil castelo de cartas. Ele, logicamente, não sabia de nada. Não havia intimidade para isso.Ela chorou. Implorou por piedade divina. Seguiu pelas calçadas da cidade sem rumo. Seguiu em direção a ele com a esperança última de fazer nascer ao menos um sorriso naquele entardecer. Aconteceu. Naquele dia percebeu que, definitivamente, a amizade perene que se estruturava com hora marcada entre os dois, não resistiria como tal por muito tempo. Ele era uma mistura tão bipolar quanto os psicóticos de plantão. Gritava, esperneava, falava alto, ao mesmo passo em que sorria e destilava compreensão pelas bordas que o envolviam. Ela, naquele dia, percebeu que uma das inúmeras coisas que tremiam dentro dela tremiam por ele, e teve medo. Muito medo. Ele, psicólogo por vocação, não tardou perceber. Em meio a delírios adolescentes,ela confessava alguns de seus segredos tão macabros quanto a ressaca moral do dia seguinte. Ele a convida para o depois. Ela aceita já no agora. No caminho para casa, perplexamente ela tenta saber se entrará no jogo... Decide que apenas a empiria poderá responder. Veste-se e perfuma-se com o nervosismo que antecedia as matinês do colegial. Sai. Espera. Sorri. Ele é outro, não é o mesmo amigo. Há algo de diferente naqueles olhos de maresia.O sorriso aberto, amparado pelas covinhas infantis nas bochechas,e os dentes graciosamente desalinhados que a encanta e faz ela perder o medo e a vergonha.
Estava ali... pois soube desde sempre que o gosto daquele beijo seria exatamente como foi. Perdera o domínio do jogo, perdera a noção do tempo e do espaço. Percebera que não estava numa partida de xadrez. Raciocinar e planejar o próximo ato estavam fora de cogitação.
 A noite acabou. Ela chega em casa, "adeus, até mais, nada muda entre nós". Claro, por certo que não. Entretanto, ao baixar a cabeça no travesseiro, tentando encontrar algum sentido para o que aconteceu, aquelas estranhas borboletas que teimavam em não parar de voar em seu ventre a preocuparam. Dormiu e sonhou com ele. Primeira vez. Tudo tão rápido. Despertou e sentiu que algo dentro de si mudara, o sombrio sentimento da culpa deu lugar a algo mais leve, mais jocoso. Foi até a janela e suspirou para o ar da manhã. O sol brilhava, desejando boas-vindas. Olhou para o relógio e deixou cair o lábio inferior. Ainda faltava tanto tempo. Mas a certeza estúpida de que esse espaço de vida passaria voando fez com que trocasse o momento de chateação pela mordida clássica no mesmo lábio. Era o sinal de que estava feliz. Era o sinal de que perder o juízo valera a pena.Ainda que não fosse paixão, amor ou algum sentimento doentio semelhante, confortou-se em estar junto a alguém que apreciasse sua -ainda que momentânea- presença. Acordou de sobressalto com o ressonar já esquecido nos confins de suas lembranças.Agradeceu em pensamento a chance que tivera de sentir-se lúcida, leve, até mesmo leviana.
 A parte débil da minha maçã do amor é a que mais polpa possui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário